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Depress√£o severa pode ser tratada com marcapasso, aponta estudo

O instrumento √© respons√°vel por emitir pulsos el√©tricos que atuam nos neur√īnios, que s√£o as c√©lulas cerebrais

Por (Redação) em 24/12/2021 às 19:25:08

O marcapasso, equipamento médico utilizado h√° décadas principalmente para problemas cardíacos, pode ter mais uma nova fun√ß√£o -o tratamento contra a depress√£o. Um novo estudo, realizado parcialmente no Brasil, avaliou os efeitos que a ferramenta pode ter contra a doen√ßa psiqui√°trica e encontrou como resultado uma melhora bastante significativa nos pacientes.

Normalmente associado à marca√ß√£o do ritmo cardíaco, o marcapasso teve muitas evolu√ß√Ķes desde a década de 1960. Com ele, é possível tratar enfermidades cerebrais porque o cérebro "recebe comandos elétricos muito bem e a gente consegue controlar sintomas de v√°rias doen√ßas", afirma Antônio De Salles, neurocirurgi√£o do Hospital Vila Nova Star, da Rede D'Or, e coordenador da pesquisa.

O médico afirma que, atualmente, o equipamento j√° é conhecido para o tratamento da epilepsia, do Parkinson, de tremores e dores crônicas, por exemplo. A depress√£o é uma das doen√ßas que est√£o sendo investigadas com o uso da ferramenta, assim como o alzheimer.

O instrumento é respons√°vel por emitir pulsos elétricos que atuam nos neurônios, que s√£o as células cerebrais. Esses pulsos podem ser manipulados em diferentes fatores a depender da finalidade que se quer atingir, como frequ√™ncia, intensidade e tamanho. É a partir desses pulsos que é possível manipular as fun√ß√Ķes cerebrais para tratar algumas doen√ßas.

Por exemplo, caso um paciente tenha um tremor, é possível identificar os neurônios cerebrais que t√™m rela√ß√£o com o controle muscular. A partir daí, pulsos elétricos podem ser transmitidos durante uma cirurgia para observar se o tremor cessa. Caso isso aconte√ßa, "nós sabemos que, se mantivermos esses pulsos elétricos através de um marcapasso implantado no paciente, ele n√£o ter√° mais o tremor", explica Salles.

Esse modelo, baseado na manipula√ß√£o das fun√ß√Ķes cerebrais, é parecido com o que acontece com as drogas, mas o marcapasso tem a vantagem de n√£o gerar efeitos colaterais nos pacientes.

"A gente entra com essas [drogas] de maneira que elas manipulam a parte química do cérebro. O problema das medica√ß√Ķes é que elas entram no corpo todo, e aí temos efeitos colaterais relacionados a v√°rias medica√ß√Ķes".

Como o marcapasso é ligado a √°reas específicas do cérebro, ele "atua somente ali e [naquelas] redes elétricas, ent√£o n√£o [atinge] outras partes do corpo".

Com a pesquisa, a ideia de Salles era provar que, por meio do nervo oft√°lmico que fica embaixo da sobrancelha, seria possível levar "impulsos elétricos ao cérebro e esses impulsos [manipulariam] a química relacionada à depress√£o". Esses impulsos, no caso, poderiam ser transmitidos por um marcapasso.

Para provar esse conceito, o neurocirurgião realizou a investigação que foi iniciada há cerca de cinco anos e contou com a participação de 20 pacientes diagnosticados com a doença. Esses participantes foram divididos igualmente em dois grupos -um que realmente teve o tratamento (experimental) e o outro que era o controle.

Com o estímulo constante que o marcapasso ocasiona no nervo oft√°lmico, Salles afirma que foi possível ver uma melhora significativa para o grupo experimental.

"A gente [acompanhou os pacientes] por muito tempo para ter certeza [da melhora]", afirma o neurocirurgi√£o, indicando ainda que a maioria dos participantes do grupo experimental conseguiu fazer a√ß√Ķes que antes n√£o eram possíveis, como sair de casa, trabalhar e ter rela√ß√Ķes amorosas.

Uma dessas pacientes foi a publicitária Márcia Castrillo. Ela foi diagnosticada com depressão severa em 2007. "Parecia que minha vida tinha acabado. Eu não tinha força nem para ir trabalhar, tinha muita enxaqueca e dores", relata.

Castrillo conta que procurou diversos médicos e tratamentos "para tentar melhorar, porque era muita tristeza e falta de √Ęnimo". No total, ela se tratou com sete antidepressivos, além de fazer acompanhamento psicológico. Mesmo assim, os anos foram passando e só havia algumas melhoras pontuais, ent√£o sua sensa√ß√£o era a de que o tratamento n√£o estava funcionando.

Em 2014, a publicit√°ria descobriu a pesquisa coordenada por Salles e se inscreveu. Ela passou pela triagem para o estudo e foi aprovada. Em janeiro de 2015, a cirurgia para o implante do marcapasso foi feita.

"Eu ia toda semana ao [hospital] para acompanhamento depois da cirurgia e tinha um question√°rio enorme para responder e eu respondia o pior quadro possível [...], mas conforme o tempo foi passando, eu percebia que as respostas iam melhorando. Em um ano, j√° estava respondendo tudo no melhor cen√°rio possível", afirma.

Além de melhorar o quadro depressivo, Castrillo também conta que outros problemas advindos da doen√ßa foram desaparecendo, como as enxaquecas que ela tinha constantemente.

A melhora completa veio depois de aproximadamente dois anos da cirurgia, que foi quando ela suspendeu o uso dos antidepressivos e também parou de fazer terapia.

Mesmo que haja sinais positivos no uso de marcapasso para tratar essa doen√ßa, o próprio Salles reitera que ainda é necess√°rio outros estudos.

Atualmente, o neurocirurgi√£o j√° planeja uma nova pesquisa com maior número de pacientes –segundo ele, a ideia dessa segunda investiga√ß√£o é de ter 200 participantes separados entre grupo experimental e controle para ter resultados ainda mais concisos sobre o marcapasso.

"É um tratamento que nós mostramos que funciona, [mas] a gente n√£o recomenda ainda para todos indiscriminadamente porque [foi só] uma pesquisa", afirma.

Fonte: Folhapress

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